Tem empresa que vende bem, tem lucro na conta, e mesmo assim vive no sufoco no dia 10 de cada mês. Não é falta de cliente nem margem ruim. É falta de capital de giro. O giro é o dinheiro que a empresa precisa manter à disposição só para tocar a operação enquanto o ciclo de vender e receber não se fecha. Ignorar esse número é o motivo silencioso de metade das crises de caixa que eu vejo no balcão.
O que é capital de giro (e o que é NCG)
Capital de giro é o dinheiro que fica circulando dentro da operação: vira estoque, o estoque vira venda a prazo, a venda vira recebimento, e o recebimento compra estoque de novo. Enquanto essa roda gira, uma parte do seu dinheiro está sempre presa em algum ponto dela.
A necessidade de capital de giro, a NCG, é quanto desse dinheiro a operação exige que você banque do próprio bolso. A conta é direta: some o que está preso em estoque com o que os clientes ainda te devem, e subtraia o que você ainda deve aos fornecedores. O fornecedor, quando te dá prazo, está financiando parte do seu giro de graça. O que sobra dessa conta é o buraco que você tem que tapar com dinheiro seu ou de banco.
- Estoque: dinheiro seu parado na prateleira esperando virar venda.
- Contas a receber: dinheiro seu que já virou venda mas está no bolso do cliente.
- Contas a pagar a fornecedor: dinheiro do fornecedor financiando o seu estoque enquanto você não paga.
NCG = estoque + contas a receber − contas a pagar a fornecedor. Se dá positivo, a operação consome caixa e você precisa ter esse valor à disposição. Se dá negativo, raro no comércio e comum em quem vende à vista e compra a prazo, a operação sobra caixa.
A ligação com o ciclo financeiro
A NCG nasce do ciclo financeiro, o intervalo entre pagar o fornecedor e receber do cliente. A conta em dias é esta:
Ciclo financeiro = dias de estoque + prazo médio de recebimento − prazo médio de pagamento ao fornecedor.
Se a mercadoria fica 20 dias parada, o cliente paga em 45 e o fornecedor te dá 30 de prazo, o ciclo financeiro é 20 + 45 − 30 = 35 dias. Ou seja, durante 35 dias a cada rodada, é o seu dinheiro que segura a operação de pé. Quanto mais longo esse ciclo, mais giro a empresa precisa ter. É por isso que estoque parado e prazo generoso de cliente, que parecem detalhes, são os dois maiores devoradores de caixa que existem.
Como estimar a sua necessidade
Não precisa de sistema caro. Precisa de três números que você já tem:
- Descubra o seu ciclo financeiro em dias (a conta acima).
- Descubra quanto a operação gasta por dia. Pegue os custos e despesas do mês que dependem do giro (compra de mercadoria, despesas operacionais) e divida por 30.
- Multiplique o gasto diário pelos dias do ciclo. Esse é, na prática, o dinheiro que precisa ficar disponível o tempo todo só para a roda não travar.
É uma estimativa, não um número de contador, mas serve para decidir. Refine com o tempo olhando o saldo real: se todo fim de mês falta dinheiro mesmo com lucro na DRE, sua NCG real é maior do que o giro que você tem hoje.
Um exemplo numérico
Uma distribuidora tem, em média:
- Estoque parado: R$ 120.000
- Contas a receber de clientes: R$ 90.000
- Contas a pagar a fornecedores: R$ 70.000
NCG = 120.000 + 90.000 − 70.000 = R$ 140.000. É o valor que essa empresa precisa ter de folga só para funcionar. Se ela tem R$ 140 mil de giro próprio, roda tranquila. Se tem R$ 60 mil, os outros R$ 80 mil estão vindo de cheque especial ou de atraso com fornecedor, e o custo disso corrói o lucro todo mês. O dono acha que o problema é venda. O problema é que ele nunca somou esse número.
Por que crescer exige mais giro
Aqui está a armadilha que derruba empresa boa. Dobre as vendas dessa distribuidora. O estoque precisa dobrar para atender, as contas a receber dobram porque você vende mais a prazo, e o prazo de fornecedor raramente dobra na mesma proporção. A NCG salta de R$ 140 mil para perto de R$ 250 mil. O lucro maior só chega depois, ao longo dos meses. O giro extra é exigido agora, antes do primeiro recebimento novo entrar. Crescer sem giro planejado é o jeito mais rápido de uma empresa lucrativa quebrar, e tratei desse fenômeno em detalhe no artigo sobre fluxo de caixa.
De onde vem o giro (e quanto cada fonte custa)
- Giro próprio: lucro que ficou na empresa em vez de sair como retirada. É o mais barato, custo zero de juro, e o mais saudável. Empresa que reinveste parte do lucro constrói giro sozinha.
- Fornecedor: cada dia de prazo a mais é giro de graça. Negociar 45 dias no lugar de 30 financia parte da operação sem pagar juro. É a primeira alavanca a puxar, e a mais ignorada.
- Banco: capital de giro bancário resolve rápido, mas cobra. Serve para necessidade pontual e sazonalidade, não para tapar buraco estrutural todo mês. E o cheque especial, o giro mais caro que existe, deveria ser proibido de virar rotina.
A ordem certa é sempre essa: espremer o próprio ciclo primeiro, alongar fornecedor depois, e só então recorrer ao banco, com prazo e taxa combinados, não no desespero do dia 10.
Sinais de que o giro está apertado
- A empresa dá lucro na DRE mas falta dinheiro para pagar as contas do mês.
- Você paga fornecedor com atraso ou pede prazo emergencial com frequência.
- O cheque especial ou o crédito rotativo entram na conta quase todo mês.
- Quanto mais você vende, mais apertado fica o caixa, em vez de folgar.
- Uma compra maior de oportunidade, com desconto bom, você não consegue fazer porque não tem com que pagar.
Qualquer um desses sinais é o mesmo recado: a operação precisa de mais giro do que você tem. A saída começa por medir. Some estoque, mais contas a receber, menos contas a pagar, e você terá o número que a sua empresa exige para girar sem sufoco. Depois ataque o ciclo pelos três lados: gire o estoque mais rápido, dê prazo de cliente com critério, e negocie prazo de fornecedor. Giro não se resolve vendendo mais. Se resolve entendendo quanto dinheiro a sua venda precisa ter parado para acontecer.